O Complexo Químico do Triângulo Mineiro

Postado em 04/07/2017 às 10:31:54

Por Davyson Demmer Guimarães Barbosa e Miller Gazolla Corrêa de Sá, analistas de promoção de investimentos do INDI

Em 1979, o INDI, em parceria com o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Natron Consultoria e Projetos, elaborou um amplo estudo sobre o Complexo Químico do Triângulo Mineiro (CQTM). O documento reuniu diversos trabalhos e estudos realizados pelas instituições de desenvolvimento de Minas Gerais. O objetivo era fundamentar a concepção de um complexo de indústrias químicas na região do Triângulo (BDMG; FINEP; INDI; NATRON, 1979).

Mas porque o Triângulo deveria receber atenção especial do setor químico? De acordo com o estudo, a região apresentava diversos recursos naturais que foram importantes para serem utilizados como matéria-prima para a indústria química. Foi identificada na região a presença de alumínio, chumbo, nióbio, terras raras, zinco e outros minerais, como o fosfato.

É ainda uma região dotada de importantes recursos agrícolas, como plantações de cana, mandioca, arroz, algodão e milho. E com recursos animais, principalmente com a criação de gado bovino e recursos florestais, como plantação de pinus e eucalipto. Além disso, deve-se considerar a vantagem logística da área, que permite atender às regiões brasileiras que mais demandam fertilizantes – para auxiliar a grande produção agrícola de estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo ou Goiás, além de Minas Gerais.

Outro volume do estudo (op. cit., 1979) apresentava os recursos industriais, com um levantamento da estrutura daquela época e as projeções de crescimento do parque industrial da região. A convergência das variáveis mercado e disponibilidade de recursos foram identificadas como fundamentais para determinar a localização de indústrias na região. Entre os principais grupamentos industriais da química da região, destaca-se o de fertilizantes, que era e continua sendo o setor de maior importância, que se aproveita intensamente das vantagens locais.

Potencial do mercado

A região do Triângulo é fundamental para a produção química de Minas Gerais e apresentou crescimento da produção e consolidação do complexo. A cadeia produtiva da indústria química mineira, entretanto, constitui um elo fraco da indústria de transformação estadual (FJP, 2015). O macrocomplexo químico de Minas Gerais ainda apresenta participação reduzida, de 12%, entre os macrocomplexos da indústria de transformação mineira (FERNANDES; SOUZA & BARREIROS, 2014).

De acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), em 2015, o Brasil consumiu mais de 30 milhões de toneladas de fertilizantes, enquanto produziu pouco mais de 9 milhões de toneladas. Portanto, existe uma dependência de 21 milhões de toneladas de fertilizantes no mercado brasileiro[1]. Em 2016, até o mês de outubro, a relação de produção e importação continuava num patamar parecido com o de 2015, como mostra a figura abaixo.

O déficit da produção de fertilizantes pode ser preenchido, em parte, por produção local, e a região do Triângulo oferece grandes oportunidades de investimentos, principalmente para produção a partir da rocha fosfática. O recurso é relativamente abundante na região. E, de acordo com o Sumário Mineral (DNPM, 2015), o Brasil ainda é altamente dependente de importação de fosfato, pois é o quarto maior consumidor mundial de fertilizantes.

Com as previsões de crescimento da produção agrícola, espera-se um aumento do consumo de fertilizantes fosfatados. Aliado à valorização da moeda estrangeira, o consumo contribui para que sejam produzidos localmente os recursos fertilizantes que nossa produção agrícola necessita. Minas Gerais detém cerca de 68% das reservas de fosfato do Brasil e é o estado brasileiro que apresenta a maior capacidade produtiva de fertilizantes, como pode ser observado na figura 2.

A região do Triângulo apresenta diversos exemplos de empresas produtoras de matéria-prima ou misturadoras que atendem às demandas das culturas produtivas de açúcar, café, laranja, soja e outras. Existem grandes empresas que receberam auxílio do INDI para implantação, como a FMC do Brasil, a Ouro Fino Química, a Vale Fertilizantes ou a Yara Brasil (de origem norueguesa e que forma joint venture com a Galvani). As empresas se localizam em Uberaba, no Triângulo Sul. O município apresenta diversos atrativos para o setor, como o Distrito Industrial III, que possui perfil adequado para receber indústrias químicas e de fertilizantes.

De acordo com o secretário de desenvolvimento econômico e turismo de Uberaba, José Renato Gomes, o município tem se se preparado para receber grandes investimentos, com a melhoria da infraestrutura local. É o caso do projeto de implantação de veículo leve sobre trilhos que liga Uberaba e Uberlândia diretamente ao Porto de Santos, o que permitirá o escoamento da produção de forma mais rápida e eficiente.

Por essas e outras razões, espera-se que a região do Triângulo possa ser contemplada com a implantação de empresas que possam ser fornecedoras de matérias-primas para fertilizantes. Alguns exemplos são da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados da Petrobras em Uberaba e da Vale Fertilizantes em Patrocínio, que obteve licença de instalação aprovada em abril de 2016[2]. Há ainda o projeto da Galvani em Serra do Salitre, que está em fase de implantação.

Triângulo Mineiro

Em 2015, o governo de Minas Gerais reconsiderou a subdivisão interna do estado com intuito de melhorar o acompanhamento das demandas regionais e propor políticas públicas mais assertivas. Nessa ocasião, a região do Triângulo Mineiro foi subdividida em dois territórios: Triângulo Norte e Triângulo Sul.

O território Triângulo Norte possui três microterritórios – Uberlândia, Patrocínio e Ituiutaba – com 30 municípios e população total de 1,179 milhão de habitantes em 2010. Esse território destaca-se pela produção de leite, soja e café arábica. Também possui bons índices em relação à infraestrutura das escolas públicas e tem a menor taxa de mortalidade infantil do estado. A figura 3 ilustra a localização do território Triângulo Norte em Minas Gerais.

Já o Triângulo Sul também é composto por três microterritórios – Uberaba, Araxá e Frutal – com 27 municípios e possui população total de 698 mil habitantes, de acordo com o Censo 2010. Esse território destaca-se na produção de cana-de-açúcar e soja, na lavoura; e de leite, na pecuária. O Território possui a segunda menor taxa de mortalidade infantil do estado. A Figura 4 ilustra a localização do Triângulo Sul em Minas Gerais.

Cidades polos

Como pode ser observado na tabela abaixo, as principais cidades do Triângulo apresentam altos índices de desenvolvimento humano. A maioria apresenta índices maiores que Minas Gerais ou o Brasil.

Tabela 1- Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em regiões selecionadas (2010)

Região

IDH Posição em MG Posição no Brasil

Araguari

0,773 13

197

Araxá

0,772 14 210

Frutal

0,730 83 1021
Ituiutaba 0,739 62

795

Patrocínio 0,729 87

1052

Uberaba

0,772 14 210

Uberlândia

0,789 3 71
Minas Gerais 0,731

9

Brasil 0,727

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, 2013

Os municípios do Triângulo também apresentam produto interno bruto elevado, com destaque para Uberlândia e Uberaba, que estão entre os dez municípios mineiros de maior PIB. O município de Uberlândia concentra cerca de 5,3% do PIB, o segundo maior do estado, ficando atrás apenas da capital Belo Horizonte. Uberaba concentra aproximadamente 2,2% do PIB estadual. As informações de produção referentes aos principais municípios do Triângulo podem ser observadas na tabela 2.

Tabela 2- Produto Interno Bruto de regiões selecionadas
 

Região

Produto Interno Bruto a preços correntes (1.000 R$)
2010 2011 2012

2013

Araguari

2.251.216 2.347.285 2.902.350 2.860.584
Araxá 2.572.252 2.885.999 3.939.331

4.240.870

Frutal

772.685 963.001 1.069.700 1.227.546

Ituiutaba

1.687.205 1.925.922 2.077.853 2.545.711

Patrocínio

1.279.915 1.575.862 1.741.557 1.789.635

Uberaba

7.307.230 8.138.609 9.404.248

10.882.907

Uberlândia 18.962.924 19.567.261 22.825.878

25.774.947

Minas Gerais 351.133.915 400.049.756 441.662.103

486.954.892

Brasil 3.885.847.000 4.376.382.000 4.814.760.000

5.331.619.000

Fonte: FJP e IBGE

O Indicador de Atividade Econômica dos Municípios (IAEM) foi desenvolvido pela equipe da Conjuntura e Mercados Consultoria Jr (CMC Jr) do Departamento de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Segundo o documento, a região do Triângulo apresenta grande concentração de municípios com relevante atividade econômica para Minas Gerais. Na figura 5, o percentil de 25% inclui os 213 municípios com menor nível de atividade econômica do estado, enquanto o percentil 100% apresenta os 43 municípios entre os 5% com maior atividade econômica. Percebe-se que a maioria dos municípios da região do Triângulo encontra-se nos percentis de 95% e 100%. Em agosto de 2016, a região do Triângulo foi a mesorregião mineira que apresentou o maior número de municípios com alta atividade econômica (CMC JR, 2016).

O IAEM considera o Índice de Arrecadação Municipal (IAM), o Índice de Atividade Bancária (IAB), o Índice de Abertura Externa (IAE) e o Índice de Movimentação de Empregos (IME). O indicador compreende a elaboração de 23 variáveis que indicam mensalmente a evolução da atividade econômica dos municípios mineiros. Portanto, o documento consegue captar aspectos relativos ao mercado de trabalho, à disponibilidade de crédito e liquidez, às receitas do governo, à capacidade produtiva e à inserção internacional dos municípios.

A região do Triângulo é uma das mais ricas de Minas Gerais e apresenta grande potencial para receber mais investimentos. Além do setor químico, se destaca, por exemplo, a genética zebuína: é o maior polo mundial, nas proximidades de Uberaba. A região concentra ainda grandes empresas atacadistas do Brasil, alta produção de açúcar e álcool e muitas outras capacidades produtivas que se destacam em Minas Gerais e no Brasil.

Papel do INDI

As empresas que se interessarem em investir no Triângulo Mineiro, bem como em outras regiões de Minas Gerais, podem contar com a ajuda do INDI, a agência de promoção de investimento e comércio exterior do estado. O INDI presta total apoio sem ônus aos investidores. Os serviços se referem à interlocução com instituições estratégicas, levantamento de informações, auxílio na identificação dos melhores locais e acompanhamento do projeto da concepção à implantação.

Referências

BDMG, FINEP, INDI, NATRON. O Complexo Químico do Triângulo Mineiro, volume I, Definição do complexo. Belo Horizonte, INDI, 1979.

CMC JR. Boletim de Economia Regional IAEM Indicador de Atividade Econômica Municipal, Volume 3, Número 1. Juiz de Fora, UFJF, novembro de 2016.

DEPARTAMENTO NACIONAL DE PRODUÇÃO MINERAL (DNPM). Sumário Mineral 2015. Brasília, DNPM, Vol. 35, 2015.

FERNANDES, Cândido L.L.; Carla C.A. SOUZA & Brenda B.C. BARREIROS. “Cadeias produtivas na economia de Minas Gerais”. In: GUIMARÃES, Alexandre Q. (org.). Ideias em desenvolvimento: políticas para a promoção do avanço econômico em Minas Gerais. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 2014, pp. 133-164.

FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO (FJP). Tabela de recursos e usos e matriz insumo-produto de Minas Gerais 2008. Belo Horizonte, FJP, 2015.

PNUD, IPEA, FJP. Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil. Brasília, PNUD, IPEA, FJP, 2013.

[1] Informações disponíveis em http://anda.org.br/index.php?mpg=03.00.00, acesso em 24/11/2016.

[2] Notícia disponível em http://www.diariodocomercio.com.br/noticia.php?tit=vale_retoma_projeto_de_fosfato_em_patrocinio&id=168476