A China é para todos

Postado em 06/02/2017 às 11:46:43

A importância da China para os negócios internacionais tornou-se rapidamente um lugar-comum. Ainda assim, e a despeito das quatro décadas de crescimento acelerado e década e meia de superexposição nas capas jornalísticas dos grandes veículos mundiais, existe um desconhecimento significativo entre a segunda maior economia mundial e a maior economia da América do Sul, o Brasil. Essa lacuna deriva precipuamente da imagem do Brasil na China e das diferenças de cultura negocial.

Primeiramente, é preciso reconhecer que o Brasil carece de uma imagem heterogênea, ou mesmo bem consolidada, na China, país que se abriu economicamente ao mundo no final dos 1970 e que apenas nas últimas uma ou duas décadas alcançou um número significativo de viajantes internacionais. É essencial que empresas e governos municipal, estadual e federal comuniquem a imagem de um Brasil moderno, cosmopolita e competitivo através de seus produtos e serviços, no caso das empresas, e campanhas de promoção, no caso das esferas de governo, agregando, portanto, conceitos à já existente imagem de um Brasil hospitaleiro, festivo, verde e futebolista.

É essencial que empresas e governos municipal, estadual e federal comuniquem a imagem de um Brasil moderno, cosmopolita e competitivo através de seus produtos e serviços

O turismo poderia ser a ponta de lança desse esforço de comunicação, visto que ele comunica de forma eficaz as melhores características, aspirações e produtos e serviços de um povo. Precisamos percorrer o caminho entre “país hospitaleiro” e “país que vende a aconchegante gastronomia mineira”; entre “país festivo” e “país que recebe turistas para além do litoral e do carnaval”; entre “país verde” e “país que vende cosméticos sustentáveis”; entre “país futebolista” e “país que vende marketing e serviços esportivos”. Apenas assim, o Brasil poderá deixar de “ser comprado” e começar a se “vender”.

Quanto às diferenças culturais, e ainda que contra intuitivo, o idioma não é um desafio objetivo nas relações comerciais com a China, na medida em que os chineses se internacionalizaram rapidamente nos últimos anos e têm hoje mais de 300 milhões de estudantes de inglês no país. Logo, a maior parte das empresas chinesas tem colaboradores que falam o idioma dos negócios internacionais. Entretanto, insta reconhecer que os chineses dão extraordinária importância à sua cultura e história e valorizam profundamente as pessoas que compreendem essas questões. Esse conhecimento cultural-histórico facilita fundamentalmente a construção de relações pessoais, base das relações comerciais na China.

Há de se entender também o processo decisório e a cultura negocial no país asiático. Lá, mais pessoas são envolvidas já nos primeiros momentos de planejamento de projetos, tornando essa etapa mais longa devido às deliberações, mas promovendo uma etapa de execução mais fluída, pois a construção de consenso se dera na etapa anterior. Por outro lado, os brasileiros preferem comprimir as etapas de planejamento e execução de projetos, fazendo deliberações relevantes nesse segundo momento.

Os chineses são ainda muito pragmáticos e mais focados em conteúdo do que forma, e operam em ambiente de menor contratualidade do que o Brasil. Ou seja, o relacionamento comercial passa pelo relacionamento pessoal, sob o qual eventuais conflitos são administrados. Já no Brasil, as relações comerciais são eminentemente contratuais, e, por isso, nossas negociações frequentemente privilegiam questões de forma em detrimento das de conteúdo.

Além disso, insta observar que o governo chinês, em suas diferentes esferas, tem um papel predominante e histórico na economia chinesa. A dinastia Han, que existiu aproximadamente entre o ano 220 A.C e 280 D.C., já realizava controle de preços de algumas commodities para evitar que o “livre mercado” impactasse a economia real. Hoje, a situação é amplificada com uma economia nacional acolhendo cerca de 25 mil empresas estatais centrais, provinciais ou municipais e as principais empresas privadas recebendo forte apoio governamental. Assim, o “fazer negócios” na China frequentemente passa por uma boa gestão de relações governamentais. Naturalmente, esse não é o caso das pequenas e médias indústrias manufatureiras exportadoras, que atuam de forma mais livre, não porque não desejem ter o governo por trás, mas, sim, pelo fato de o governo chinês atuar mais fortemente junto às empresas escolhidas como “campeãs”.

Apesar dessas aparentes dificuldades, o mercado chinês é e continuará a ser um dos mais promissores para empresários brasileiros. Ao contrário dos Estados Unidos e a União Europeia, que impõem barreiras tarifárias e não tarifárias à entrada de produtos agrícolas brasileiros em geral, a produção brasileira desses itens encontra, na maior parte dos casos, refúgio seguro na China.

Apesar dessas aparentes dificuldades, o mercado chinês é e continuará a ser um dos mais promissores para empresários brasileiros.

O desafio brasileiro consiste, portanto, em diversificar sua oferta de produtos à China, já que os chineses diversificaram enormemente sua estrutura produtiva nas últimas décadas e as principais importações de que necessitam são as de alimentos processados e as de maior conteúdo tecnológico. Há, hoje, na China demanda para cada oferta.

 

Ivan Pinto, gerente de projetos Ásia da Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior de Minas Gerais (INDI). Mestre em Economia pela Capital University of Economics and Business, em Pequim.

*O INDI está organizando uma missão de empresas mineiras à China. Para mais informações, acesse o hotsite do “China Day“.