Oportunidades e características da relação bilateral Brasil-China

Postado em 13/02/2017 às 09:37:45

A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. Essa característica da relação bilateral, a qual é percebida com desconfiança por alguns setores empresariais brasileiros, é contumazmente entendida sob o prisma dos desafios e não sob o das oportunidades.

# Destino de exportações brasileiras Valor FOB US$ 2015 Participação
1 China 35.607.523.612 18,6%
2 Estados Unidos 24.079.945.544 12,6%
3 Argentina 12.800.015.447 6,7%
4 Países Baixos (Holanda) 10.044.465.679 5,3%
5 Alemanha 5.178.904.951 2,7%
6 Japão 4.844.959.300 2,5%
7 Chile 3.978.438.486 2,1%
8 Índia 3.617.449.354 1,9%
9 México 3.588.345.840 1,9%
10 Itália 3.270.224.753 1,7%

Fonte: Secex/MDIC

 

# Origem de importações brasileiras Valor FOB US$ 2015 Participação
1 China 30.719.405.022 17,9%
2 Estados Unidos 26.471.345.593 15,4%
3 Alemanha 10.379.562.880 6,1%
4 Argentina 10.284.589.084 6,0%
5 Coreia do Sul 5.420.621.830 3,2%
6 Japão 4.877.203.898 2,8%
7 Itália 4.675.277.875 2,7%
8 Nigéria 4.633.119.944 2,7%
9 França 4.457.353.195 2,6%
10 México 4.377.919.339 2,6%

Fonte: Secex/MDIC

O principal ponto de reflexão é a composição da pauta bilateral de comércio. De um lado, a China se tornou rapidamente o principal fornecedor de produtos manufaturados ao Brasil, notadamente máquinas, aparelhos, materiais elétricos e instrumentos mecânicos e suas partes.

Importações brasileiras da China (2015)

 Fonte: Secex/MDIC apud Dataviva.info

De outro lado, o Brasil manteve uma pauta exportadora excessivamente especializada em commodities, como minério de ferro e soja. Essa configuração da pauta bilateral deve ser entendida como um fenômeno da confluência da ausência de transformações estruturais do lado brasileiro e de magníficas transformações estruturais do lado chinês. Contudo, essa assimetria qualitativa do comércio bilateral ainda é favorável ao Brasil quantitativamente, ou seja, quando meramente expressa em dólares.

Exportações brasileiras à China (2015)

Fonte: Secex/MDIC apud Dataviva.info

Do lado brasileiro, a caracterização da pauta exportadora à China se desenvolve a lentos passos nos últimos 25 anos. Da liberalização comercial da “Era Collor”, que sacudiu a oferta brasileira de produtos manufaturados, passando pela taxa de câmbio sobrevalorizada da “Era FHC”, erro reconhecido pelo próprio ex-presidente, ao alto preços das commodities no período Lula, a especialização da pauta exportadora brasileira foi mantida e poucos incentivos foram eficientes na diversificação das exportações. De fato, ao longo de todo o período, nota-se até mesmo o oposto: uma maior especialização em setores intensivos em recursos naturais, de baixa tecnologia, intensa utilização de força de trabalho pouco qualificada e, em geral, sem acesso direto aos consumidores finais, pois foi marcante a produção de insumos intermediários. De uma economia industrializada de outrora, o Brasil vê sua indústria definhar.

Nesses mesmos 25 anos, a China deu prosseguimento a uma série de políticas visando a transformar estruturalmente a sua economia. Nos anos 1980-90, a grande maioria das exportações chinesas eram de produtos primários ou produtos transformados de baixo conteúdo tecnológico. No Brasil, essa oferta industrial chinesa dos anos 1990 ficou iconizada nas famosas lojas “1,99” e disputou mercado com vários segmentos da indústria brasileira, como brinquedos, calçados, vestuário e produtos de plástico. Nas décadas seguintes, a transformação estrutural da economia chinesa pode ser vista na atual oferta de painéis solares, geradores eólicos, veículos elétricos, sistemas de navegação GPS, material elétrico, além de absolutamente todos os produtos das chamadas linhas branca, amarela e marrom.

A agregar tensão à percepção da assimetria da relação bilateral, temos um fenômeno mais recente: o investimento direto chinês no Brasil. Mais uma vez essa assimetria decorre da confluência de transformações: conjunturais do lado brasileiro e estruturais do lado chinês. No lado brasileiro, a conjuntura político-econômica dos últimos anos tornou os ativos brasileiros baratos em dólares americanos, e as taxas de retorno, consideradas baixas para o empresariado brasileiro face a alternativas de investimento financeiro, vantajosas para investidores estrangeiros que operam com taxas de juros menores e prazos de financiamento maiores em seus países de origem.

Do lado chinês, a gradual mudança do modelo de crescimento baseado em investimentos em infraestrutura (energia, telecomunicações, estradas, portos, ferrovias etc.) e construção civil (projetos imobiliários para atender à crescente urbanização do país) para um modelo de crescimento baseado em consumo familiar, associado à abundância de capital barato e uma forte competição entre empresas chinesas pelo mercado interno, forçaram a exportação dessa capacidade industrial para o Brasil via realização de investimentos produtivos. Isso se reflete na entrada dos chineses em setores relevantes da economia brasileira, como geração, transmissão e distribuição de energia e petróleo e gás.

Das oportunidades no comércio

No entanto, como o parágrafo de abertura prenuncia, a relação sino-brasileira pode e deve ser entendida sob o prisma das oportunidades. Do ponto de vista de comércio, o Brasil não pode, por razões práticas, almejar se tornar um grande fornecedor de produtos manufaturados à China simplesmente porque sua oferta industrial, infelizmente, encolheu nas últimas décadas e é hoje pouco diversificada face às transformações estruturais da indústria chinesa. Os chineses, entretanto, continuarão a comprar aqueles itens cuja oferta interna inexiste ou é insatisfatória, como aviões da Embraer e compressores da Embraco. Nesse caso, cabem a essas empresas levar a cabo a contínua inovação de seus produtos e processos, além de assegurar a defesa ou a remuneração de sua propriedade intelectual, garantindo assim seus interesses de longo prazo.

A mudança dos hábitos de consumo na China, em decorrência do aumento da renda e crescente internacionalização dos chineses, representa uma oportunidade ao agronegócio e à indústria de transformação brasileiros. Os chineses estão cada vez mais ávidos sobre produtos importados, mas esses devem trazer algum diferencial em relação à oferta local, se existente, ou em relação à competidores internacionais.

Eventos fortuitos, como o escândalo de adição de melamina ao leite em pó infantil produzido na China para falsear os níveis de proteína do produto, resultando em mortes de crianças no país, até então, do filho único, podem ainda culminar em oportunidades capturáveis pelo Brasil. Minas Gerais é um dos principais produtores de leite e derivados do Brasil, mas até então não tem explorado essa oportunidade porque o mercado interno brasileiro absorve essa produção.

Com o aumento da renda familiar, os consumidores chineses estão dispostos a pagar um prêmio por produtos diferenciados, sejam esses essenciais ou supérfluos. Uma lata importada de leite em pó infantil de alta qualidade varia entre 170 iuanes (83 reais) em plataformas online e 900 iuanes (439 reais) em lojas físicas chinesas. O novo Iphone 7 custa 649 dólares no site americano da Apple, enquanto vale 5.388 iuanes, ou seja, cerca de 779 dólares, no site chinês da empresa, apesar dos aparelhos serem montados na China.

As possibilidades para produtos brasileiros estão abertas para uma enorme gama de produtos, de alimentos preparados à moda. E as empresas que se disporem a investir na diferenciação de seus produtos encontrarão não apenas apoio do governo estadual, através do programa estadual de promoção às exportações, Exportaminas, sob gestão do INDI, mas também margens operacionais maiores do que as encontradas no mercado brasileiro.

Das oportunidades no investimento

Investimentos chineses no Brasil também representam oportunidades para empresas mineiras. Embora os vultuosos volumes de investimento sugiram, em um primeiro momento, um certo “know how” ao entrar no mercado brasileiro, o fato é que a maioria das empresas chinesas tem pouco conhecimento sobre o mercado brasileiro. São abundantes os casos em que empresas chinesas, a despeito da disponibilidade de capital, fracassaram ao entrar no Brasil, como demonstram as empresas automobilísticas do país asiático.

É comum, de fato, nos depararmos com empresas avaliando investimentos no Brasil que pedem, explicitamente, apoio para encontrar parceiros de todos os formatos empresariais. Isso dá-se pelo próprio fato de que, durante a abertura da China nos anos Deng Xiaoping, o governo chinês requeria que empresas estrangeiras entrantes encontrassem parceiros locais. Hoje, esse padrão se repete quando empresas chinesas vêm ao Brasil.

Uma primeira oportunidade para o empresariado mineiro resume-se à locação de condomínios industriais e à prestação de serviços especializados. Empresas chinesas estão habituadas a ter, em estado de prontidão, toda uma infraestrutura industrial fornecida pelo poder público. Esse anseio é manifestado por empresas chinesas que entram no Brasil e se instalam em condomínios industriais locados por anos enquanto erigem suas instalações e vivenciam o longo aprendizado do licenciamento ambiental, das leis trabalhistas, das regras de construção civil, da análise de crédito de clientes etc.

Outras oportunidades incluem arranjos empresariais entre construtoras mineiras e empreiteiras chinesas. Com o atual momento de dificuldades das grandes empreiteiras brasileiras, médias construtoras mineiras podem buscar arranjos com grandes empreiteiras chinesas, nos quais as mineiras entram com conhecimento de mercado e das regras de operação, e as chinesas entram com financiamento barato e capacidade de execução de grandes obras. No longo prazo, as empresas mineiras absorveriam a tecnologia de gestão de grandes obras e continuariam a ser parceiras preferenciais das empreiteiras chinesas no Brasil.

Por fim, existe a possibilidade de integração das cadeias industriais. Empresas chinesas estão atuando fortemente em vários setores industriais brasileiro para o qual  Minas Gerais tem relevantes fabricantes de máquinas e equipamentos. Arranjos empresariais que permitam a transferência de tecnologia, a co-produção, contratos de fornecimento, entre outros modelos de cooperação podem ser favoráveis ao Brasil.

 

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Ricardo Ruiz, vice-presidente da Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior de Minas Gerais (INDI). Economista com graduação e mestrado pela Universidade Estadual de Campinas e doutor em Economia pela The New School for Social Research (USA). É professor associado da Faculdade de Ciências Econômicas e do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (CEDEPLAR), ambos na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

 

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Ivan Pinto, gerente de projetos Ásia da Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior de Minas Gerais (INDI). Mestre em Economia pela Capital University of Economics and Business, em Pequim.

*O INDI está organizando uma missão de empresas mineiras à China. Para mais informações, acesse o hotsite do “China Day”.